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Um silêncio tão raro

Eu queria contar sobre um sonho, eu estava ali, e tudo começou quando eu estava tendo problemas para dormir. Há uma luz que entra em casas sem nenhum interesse para com outras casas. Enquanto conto saiba que sinto calor e hedonismo. As costuras dos corpos, difusas, fragmentadas, não me permitem a recordação, mas um homem me acompanhava. Seu desgosto por mim era imenso, da sua boca: silêncio, tépido. A aparência familiar. Instável. Escrevia sobre uma mesa. Um espelho nos fazia companhia, do lado direito. Parecia concentrado, li de relance algumas linhas do que escrevia, nada impressionante. O julguei. O respeitei ainda menos. Sua feição indicava, lentamente, a frustração urgente, a carne triste que me distancia… intrometida com a beleza enigmática, do olhar cego, diminuí apoiado na mesa, claro, arqueando os ombros, perdendo dignidade. O homem pede dois sorvetes. Eu não como sorvete. Quero vomitar. Vomito. Volto do banheiro, sento, duas mulheres estão com os sorvetes, sorrindo, rindo, ...

algo no caminho

Lados. Num deles, alguns sujeitos tristes habitam, do outro, é a tristeza, como palavra encarnada, opondo-se à definição, passeando ao redor do vazio do sentido, em trânsito: perpétuo. Agosto. Janeiro. Meses abençoados, frio, chuva, ardência de couro e silêncio. Surpresas. Em agonia, acaricia aflições no escuro canto da sala, imberbe, e a postura revela um homem intacto, o escuro algodão da charmosa calça torneada é impiedoso, porém, na solitude do quadro indesejável, se encarado, se esmiuçado, dou-me de cara com a fronte de um jovem confuso, na fronteira do, estado, delirante, repensando seus atos, rezando pelo perdão de contradições, outrora sublime eufemismo para pecado. Pecado que o constrange, que o abusa, que o fez verdadeira vítima, então e, portanto, na viscose azul-marinho da camiseta há de haver: claridade para todos os enigmas, quem sabe. Ou palavra da (imaginária) amada, que o confortaria imensamente: recifes. Não vale a pena se preocupar, pensa, tenta não se preocupar, fr...

do we have time

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fundo, fundo

                              Senhor, antes de mais nada: me avise a respeito de qual mãe terei de matar. De resto: a ordem é irrelevante, irreverente, até. Não quero mais viver dessa maneira, sentindo todas essas coisas. Me lembro que até Garbo sofreu dos incômodos da depressão, e ainda assim: eu não sofro, só finjo que sofro, só fico parado, aqui, com esta postura, intacta, altiva, e conservando-me belo, acabado. Aos fatos, logo eu não sinto nada de relevante. Possivelmente, nem sei o que é amar, nunca amei, nunca senti, não sei meu nome (não tenho!), possivelmente, sou um monstro, provavelmente, menos monstro que ele e, ainda, assim, desejando ter um coração de gelo, um coração, como gelo, pela facilidade, pelas luzes, pelas intimidades, esquecidas, pelo próprio esquecimento etc. Contra a, jogada, do tempo, sua solitude inquisitiva, e contra a ciência, por que se algo é intransável, por naturez...

rascunho 0008

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rascunho 0007

Quando pensa nela, recorda de todo um cheiro particular, que lhe faz pensar em w. kandinsky, pois é um cheiro que conheceu em janeiro e representava todas as expectativas que um poderia ter.  É quase meia-noite. Sentado no banco da igreja, contando os ponteirinhos, extemporâneo lugar, eu sei; e pensando em como seria virar aquele ano com ela. Aos poucos tudo se esfacelou, e agora? Agora a timidez tomou conta de tudo, as admirações se foram, as possibilidades se ampliaram, a realidade murchou. Por agora, só sobra no peito o peso, que é saber ser, só, outro canalha, ou coisa parecida.

rascunho 0006

Sussurros dizem que enquanto a expressão doce melancolia existir, gente como eu e você vai continuar nesse sofrimento. Em nossa guerra às drogas. Hoje é dia de data mórbida e há particular razão para discutir isso com alguém? Coisíssima nenhuma. Até porque, não existe esse alguém. E tanto faz que somos todos alguém. Segundo minhas raízes (ele não as tem, verdadeiramente) irei em breve me afetar, por semelhante sonho do dia de ontem.